Filtro de Mentes

Mês: junho, 2013

A manhã seguinte

Banhava de sol o corpo seminu. É azul, o céu. O vestido florido voa do varal do jardim. A jovem moça, moradora da casa, sai correndo enrolada pelos lençóis recém estendidos atrás da roupa. O vestido para nas mãos grandes de um homem bem vestido e, segundo os moradores da vila, de boa formação. A mulherzinha contrai o rosto, emburrada. O homem sorri, sem jeito. Ela pede o vestido rapidamente, querendo fugir dessa situação.

O homem, num ato surpreendentemente cavalheiro, tira o terno cinza e oferece à moça e pergunta-lhe o nome. “Liz“, ela disse enquanto vestia a peça masculina. Ele observa o trabalho que ela tem para não deixar os lençóis cairem enquanto se veste, e, ao final, admirou-se com o tamanho da garota: o terno cobria devidamente dos ombros até as nádegas. Um pouco menos emburada, ela torna o caminho de volta para o quintal da casa. Estavam na rua, atrás do imóvel. Passaram a cerca de madeira pintada de verde musgo e assim ela agradeceu com apenas um obrigada e um sorriso de caixa de segredos. Ele se inclinou e ofereceu o rosto para um beijo, que foi dado depois de um riso tímido e, para quem observava, medonho. Ela entrou em sua casa para vestir o vestido e ele retomou seu caminho.

Durante o percurso, mas ainda próximo da casa da pequena moça, o homem parou um menino rizonho que segurava uma bola de futebol e pediu-lhe que entregasse um recado à menina de nome de flor: estaria, em breve, de voltar para pegar seu terno grisálho. Deu uns trocados para as balas que prometera ao garoto e foi embora. Mas, antes de virar a esquina gritou. “Ei, garoto! Peça-lhe que use o vestido voador.

Desde já, conta as horas para a manhã seguinte.

A garota pequena do vestido e nome florido parecia se encaixar perfeitamente em seus braços. Era amável.

Capistrano.

Anúncios

Os Saudade.

Soltou os dedos dos cabelos que caíram redesenhando seu rosto. As pontas, ao caírem e atingirem seus limites – um chão invisível na altura dos ombros – pularam mais que uma vez até acomodarem-se ao clima sem brisa do local. Puxou-me com os olhos como se os traços de sua íris virassem centenas de braços. E é bom. E perto dele as cores se combinaram, gerando um equilíbrio descomunal no ambiente. Senti vontade de tocá-lo, e assim o fiz. Deixei que meus desejos fossem atendidos por mim. Não só toquei, como abracei forte e ele fez o mesmo. Não nos vimos há muito e o nosso nome agora, entre o abraço, é Saudade.

Eis que uma voz microfonizada repete mais uma vez:

Senhor João Maria Paixão da Saudade.

Nossos corpos se separam, mas as mãos impedem e se abraçam. Andamos lado a lado e sentamos no balcão para assinarmos os papeis. Assim, nos tornamos Senhor e Senhora Saudade.

Capistrano