Filtro de Mentes

Mês: outubro, 2013

Número 64.

Universo.

Céu.

Chão.

Pensamento constante. Sem variação de assunto. Expressão constante. Fria, quase congelada. E esse “quase” é a única certeza de que está vivo.
A cor negra não reflete a luz. Absorve todas. E seu oposto é o branco, que mostra o que tem, sem hesitar. Não vem ao caso. Este mundo é negro. Negro como o lápis que escreve essa poesia proseada e sem rima. Para que diabos embelezar algo num mundo onde tudo se resume a números? Eu sou o número 64 e minha mulher morreu num incêndio, me disseram. Os tons de vermelho, laranja e amarelo misturados matou minha mulher. Elas absorveu e refletiu essas cores durante a vida toda em seus vestidos e palavras floridos, e morreu fazendo o mesmo. Quando a encontrei, pude ver seus olhos ressecados e ainda refletindo a cor da sua morte, me disseram. As memórias que existem dela, não sei se foram criadas por mim a partir dos relatos ou se foram realmente reais.
A enfermeiro me chama. Está na hora dos remédios. Não quero. Quando engulo aqueles comprimidos não consigo mais pensar. Sobre ela. Aqueles cabelos curtos, ondulados, refletindo a cor do sol…
Tentei olhar para o sol algumas vezes. Me disseram que meus olhos ressecariam. Senti uma ardência e uma vontade indescritível de desviar o olhar. Que cor. Me leva. Que dor… Então essa foi a sensação que ela sentira antes de virar um meio-corpo-carbonizado. Quero sentir para sempre o que ela sentiu. Para sempre. E para isso, devo me assegurar que não fique cego. Devo parar de observá-lo, sol. Prazer. Até mais.
Os remédios fazem efeito. Tudo é absorvido: preto. Eu sou o número 64 e o ultimo da lista. Não me contam porquê.
Um homem careca abre a porta: reconheço-lhe pela voz. Grave e controlada. Devia me acalmar. Ele me conta o meu passado. Todo dia a mesma história. Eu gosto. – Sua mulher morreu num incêndio. Seus filhos foram assassinados pela mãe adotiva – Pergunto-lhe porque os adotei. Ele me diz. Fiquei louco. Doente de saudade.
Saudade. Quero voltar para o sol. Todos estão lá fora observando o eclipse. Não me atrai. Não me queima. Observo o lápis preto escrevendo esta prosa. “Todos deveriam observar as chamas do sol”, ele escreve. Concordo.
Os efeitos passam mas permaneço vendo vendo o preto. Não sinto vontade de ver a luz agora. Não quero pensar nela. “Pensamento constante” o lápis me lembra. Verdade. A vontade volta.
O chão que era vermelho, tornou-se cinza. Tons de preto. Papéis queimados não chão. Tons de preto em todos os lados. O homem careca de despede. Lembra que eu tenho sempre que acreditar em suas palavras. Confio, embora às vezes pense que tudo possa ser mentira.
Que seja: eu sou o número 64. O ultimo paciente. Sem medo. O preferido.. O que recebe cigarros e roupas diferenciadas.
Já amanheceu. Toco os pés no chão procurando os sapatos e antes de calçá-los coloco um bilhete: “Sou o número 64”. Tomo milha dose de dor. Injeções inúteis. Me dirijo ao jardim onde uma senhora me pede silêncio com um sinal comum. Não faço barulho, já sabia dessa regra. Olho o sol e tomo minha dose de prazer. É dolorido, mas vale a pena. A lua está afastada da região de alinhamento e não me atrapalhará hoje. Assim, absorvo as cores que minha mulher, em sua branquitude, refletiu para mim.
“Risca. Risca. Faísca. Risca. Fogo.”

Camada 2 (Máscara)
– Capistrano.
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t1

Montanhas de terra
Delineiam o horizonte
No meio desses olhos de primavera invernecida

Capistrano.