Filtro de Mentes

Dicionário.

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O quarto.

Algumas vezes, quando me sinto mal, mudo meu quarto. E funciona. A dor passa, a tristeza passa, e o modo de ver as coisas muda. Talvez porque meu quarto seja eu, em essência. Assim como ele, preciso de mudanças, de retoques. Tenho em meu quarto o que preciso. Tudo. E estou bem. Mudando e retocando.

 

 

Falsa grandeza.

Da sua grandeza ou pequeneza vivem os Homens a se classificar. Grandes construções, famílias e contas bancárias elevam cada vez mais o corpo que tais almas vivem. Almas presas, cercadas de ambição, ganância e outros pecados capitais limitadores da essência da Vida.

São grandes, esses Homens, que não enxergam o próprio umbigo, de tanto que suas cabeças estão elevadas. Olham para cima, mas não avistam o céu. Admiram a ponta do seu nariz, apontando para o outro lado do arco-íris, onde há ouro. Muito ouro. Mal sabem que nunca alcançará tal horizonte, pois a distância não se altera, mesmo que ande o máximo de que puder…
Esses homens não veem o meio, apenas o fim. E por isso suas vidas são vazias.
Eis, então, que um dia um Grande Homem anunciou a vinda de um cometa ao planeta deles. Todos se desesperaram… Toda a vida que construíram se acabaria em alguns segundos, quando a formação rochosa colidisse em seu território.
Aquela rocha que vivera sua vida inteira numa imensidão, ciente de sua pequeneza, de sua insignificância, agora, nos olhos de Grandes Homens, se tornara Enorme. Impotente. E eles, aos próprios olhos, pequenos. Aflitos.
“De que adiantou toda nossa preocupação em sermos notáveis”, algum Homem se questionou. Muitos concordaram com sua indagação e se arrependeram do que fizeram de sua vida. E, então: fim.

A vida deles fora destruída: casas, prédios, torres, pontes, bancos. Mas a Vida permanece.

Capistrano.

Presença

Esse assoalho de madeira

cuja simetria direciona

o olhar ao belo e ao incansável.

Justo que o chão não seria preciso

se eu já soubesse voar como sabes

E como sabes

os teus pés,

limpos,

 não precisam tocar o chão,

não estar aquém dos meus,

mas além deles:

em minhas mãos.

São eles que repousam no ar

e que movem os ventos

num singelo movimento,

mas preciso.

Porém, belo está

repousado aqui

nesse belo chão

de madeira simétrico

aquém de mim.2014-11-30 18.02.46

Capistrano

A vida tem dessas coisas. Algumas vezes alguns de nossos familiares não se fazem presentes além do sangue que é bombeado incessavelmente a todo minuto. Outros são presentes, mas nada que te faça lembrar toda hora deles. Poucos, então, são tão presentes que se perde a noção do quanto é importante para o equilíbrio de nossas vidas.

Em uma família, na periferia da cidade de Salvador, existem três filhos homens. (Não sei se tem alguma mulher, pois não foi mencionada na conversa). Todos estão envolvidos negativamente com um grupo de tráfico que ronda o local. Um está preso, outro foi recém-liberto e o outro foi ameaçado de morte. Eles não tem pai e a unica figura que fora responsável por eles é uma mulher que chamarei de Danae.

Danae sacrifica sua vida por seus filhos. Seus filhos, no entanto, não reconhecem as ações de Danae. Eles saem da cama, usufruem de sua água, seu pão e seu amor e andam porta afora sem dizer um até logo. Pelo contrário! Cobram-lhe o almoço. Mas esses são apenas os que vivem com ela. O primeiro filho está hoje na prisão, cobrando-lhe visitas e acessórios de limpeza pessoal. Danae é cobrada vinte e quatro horas por dia. Sim… vinte e quatro horas por dia. Em seus sonhos, há um ser que insiste em dizer a ela que no dia de amanhã, deve continuar fazendo o que se faz. – Um ser de roupa branca e luz amarelada ao fundo. Não se sabe quem é até hoje.

Então Danae levanta. Levanta e faz café. Cafeína ajuda a levar o dia e colocar um sorriso nessa tez tão cansada. Dá comida aos filhos livres, dá presentes ao filho condenado e permanece trancada nessa jaula com uma placa escrito: Vida.

– Capistrano